Inês Marques, KWAN: A arte de saber sair
Há uma coisa que o futebol e o mundo empresarial têm em comum: podemos passar anos a construir uma história e, ainda assim, ser a forma como saímos que fica mais presente na memória de quem fica.
O caso do Ronaldo fez-me pensar precisamente nisso, porque acontece exatamente da mesma forma nas empresas.
Podemos estar frustrados com uma decisão, desiludidos com uma liderança, cansados de uma dinâmica de equipa ou simplesmente sentir que chegou o momento de procurar outro desafio – é perfeitamente legítimo. Nem todas as relações profissionais terminam porque correu tudo bem até ao último dia.
O que me parece interessante é aquilo que fazemos com esse descontentamento, porque sair bem não significa evitar o conflito.
Podemos discordar, questionar decisões, defender aquilo em que acreditamos e dar feedback difícil. Podemos ter princípios diferentes dos de quem está do outro lado da mesa. A grande diferença está na forma como o fazemos: na forma como falamos, na forma como agimos e na capacidade de defender as nossas ideias sem sentir que, para isso, temos de diminuir as dos outros.
É possível sair e dizer o que pensamos. É possível explicar por que estamos desiludidos. É possível deixar claro aquilo que não funcionou. Mas existe uma diferença enorme entre ser honesto sobre as razões que nos levam a sair e querer deixar uma ferida como última marca da nossa passagem. E é aqui que, para mim, está a verdadeira arte de saber sair.
Não porque devemos sair sempre em silêncio ou fingir que está tudo bem, mas porque as pessoas com quem trabalhamos ao longo da nossa carreira são, muitas vezes, a nossa maior referência – são elas que sabem como trabalhamos, como reagimos sob pressão, como tratamos os outros, como defendemos aquilo em que acreditamos e como lidamos com os momentos menos bons. E essas pessoas vão falar de nós um dia, numa recomendação, numa entrevista, numa conversa entre empresas (ou entre amigos), ...
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